Artista perde noites com burocracia de edital; outros conseguem milhões com um telefonema

COLUNISTA: Rodrigo Lamore
Quantas vezes, você artista já perdeu noites sono, pesquisando, lendo os editais, tentando conseguir todos os documentos solicitados, preenchendo-os com as informações pedidas, esperando o site voltar ao ar porque houve sobrecarga no tráfego com milhares de outros artistas participando também (para tentar ganhar uma merreca para o seu projeto cultural e no final não conseguir). E ainda, o clássico de todos os tempos, ser chamado de vagabundo pela direita, como se arte e cultura não fossem trabalhos, e ainda ouvir absurdos do tipo “você recebe dinheiro da lei rúânê” (pausa para chorar).
Como se não bastasse a humilhação diária sobre os trabalhadores brasileiros, e no caso do nosso artigo, desses que entretêm a plateia, como bobos da corte, agora ficamos sabendo que o Bolsonarinho, com apenas um telefonema, conseguiu milhões de reais de um banqueiro corrupto, para financiar um filme político sobre o próprio pai, expondo para o respeitável público o que nós artistas já conhecemos a respeito de como funciona o modus operandi do sistema capitalista do mundo do entretenimento e manipulação de massas.
Os cinemas virando igrejas neopentecostais, lavagem de dinheiro utilizando cantores de sertanejo e funk, professores, alunos, escolas e universidades sendo perseguidos e intimidados por influencers e políticos neofascistas para ganhar likes e engajamento nas redes sociais. Esse é o quadro atual no Brasil, onde pessoas que aparentemente são normais, fazem vídeos de si mesmos, orgulhosos ingerindo detergente pois “não querem ser censurados pela Anvisa comunista”. E aquele que dispõe do seu tempo para a criação artística, em todas as épocas da trajetória humana no planeta, dos desenhos em cavernas, aos trovadores de rua, dos poetas bêbados numa mesa de bar, dos pintores e inventores da Idade Média, do fotógrafo que imortaliza fatos que duraram menos de um segundo, todas essas pessoas têm em comum o aspecto da ação e manifestação de sensações, informações, conhecimentos, experiências, insights, em grande parte contrariando o status quo naquele contexto, já que o fazedor de arte é um contestador em seu âmago, qualidade essa que leva às reações diversas mostradas no primeiro parágrafo do nosso texto.

No entanto, ainda estamos aqui, na labuta diária, firme e forte, acreditando, trabalhando, criando, descobrindo novos caminhos e formas, pensando o mundo e mostrando a diversidade do viver, sentir e enxergar a vida, e percebendo que o problema no nosso país não é a falta de recursos, pois já está explicitamente comprovado que temos dinheiro para investimento, e não é pouco; o que ainda não temos é uma mudança de paradigma no sentido de não mais permitir que o nosso patrimônio, que tanto contribuímos com impostos, não caia em mãos erradas, daqueles que são os verdadeiros vagabundos e mamadores do Estado, e que nos acusam daquilo que praticam. Que logremos acordar para a realidade, sobrepujando o dito popular antigo e errôneo de que pessoas honestas não devem se meter com política, pois nela só há imoralidade e crimes. Em verdade vos digo, para que o Brasil mude, temos que mergulhar de cabeça na política, nos candidatando, participando dos grandes debates, influindo nas decisões do congresso nacional, elaborando pautas, informando as pessoas sobre o que é realmente importante, e finalmente apoiando os que já estão no poder e possuem afinidades conosco, sem se deixar levar pela propaganda da mídia tradicional, e das desinformações dos nossos familiares e amigos que nos impedem de agir sob o discurso de que “é pelo nosso próprio bem”.